O Festival de Jazz de São Paulo mostrou uma saudável salada de sons do presente e do futuro. E foi o nosso Hermeto, com sua incrível criatividade, quem melhor sintetizou essa bela mistura.
Por Ezequiel Neves
O
simples fato de ter levado ao Palácio das Convenções do Anhembi uma platéia
superior a 60.000 pessoas, durante sete dias e oito noites, consagra
triunfalmente a realização do Primeiro Festival Internacional de Jazz de São
Paulo. E o melhor: o fato de pelo menos metade dessa platéia ser composta de
jovens que antes nunca haviam travado contato com o idioma de Louis Armstrong
dignifica ainda mais a ótima idéia da Secretaria da Cultura, Ciência e
Tecnologia. que transformou São Paulo, do dia 11 ao dia 18 de setembro, em
capital mundial do jazz.
Lógico que um evento monumental como esse iria
gerar muitas controvérsias. E as discussões partiram, principalmente, de
puristas e retrógrados que insistem ainda em rotular o que é e o que não é jazz.
O que não deixa de ser um papo muito do furado: durante mais de seis décadas, o
jazz tem se firmado justamente por ser uma linguagem musical aberta a todas as
influências. E os instrumentistas que integram suas trincheiras sempre souberam
absorver e transcender todas as experiências do presente. Tendo por base a mais
sadia improvisação, o jazz, acústico ou elétrico, provou mais uma vez ser o
idioma musical popular sem as fronteiras que limitam repressivamente o passado,
presente e futuro.
Quem
foi ao Anhembi se esbaldou com a diversidade fosforescente de estilos e
correntes. Elas conviveram sem nenhum conflito, mostrando de forma didática um
vibrante painel que cobre quase cinqüenta anos de jazz.
As big bands (espécie de som discotheque dos anos 30) estiveram representadas da
forma mais descabelada possível. Se a Jazz Band da Universidade do Texas mostrou
apenas um xerox pomposo e amador de standards jazzísticos, Paulo Moura e José
Menezes fizeram a platéia mergulhar na maior farra. O primeiro, tocando e
regendo a Rio Jazz Orquestra, mostrou que o tempero brasileiro só enriquece e
apimenta o jazz tradicional. E o segundo, à frente da eufórica Banda de Frevo do
Recife, provou que esse ritmo explode o rótulo "folclore": jazz é também
alegria.
A
exibição do grupo Jazz at the Philarmonic foi, principalmente, bem emocionante.
Se somássemos as idades de seus componentes (os lendários Jimmy Rowles, Harry
Edison, Mickey Roker, Ray Brown, Milt Jackson, Roy Eldridge e Zoot Jims)
teríamos quase 400 anos de genialidade a serviço do som. E o que se ouviu foi
uma exibição clássica e cristalina de estilistas vibrantes, exemplo máximo do
que aconteceu de melhor com o jazz dos anos 50. E o mesmo pode ser dito do show
do saxofonista Benny Carter, que transcendeu a "música de boate" feita pelo
grupo de Nelson Ayres. Pertencendo à mesma geração desses medalhões, o sempre
jovem Dizzy Gillespie, além de soprar seu trumpete entortado, também se esbaldou
alegremente nas Percussões, inventando sons repletos de atualidade.
Mas foi o setor do jazz vocal que motivou as mais caducas discussões. A
incendiária Etta James, por exemplo, quase foi condenada à morte. Isso porque o
seu jazz está pousado nos gospels profanos e na fusão do rhythm and blues com o
rock. Etta, mastodôntica e maravilhosa, pulverizou a platéia com sua garganta
furiosa a ponto de eclipsar a exibição de Al Jarreau (um Johnny Mathis da
pirotecnia dos scats), Taj Mahal (prejudicado pela falta da cozinha rítmica) e
Milton Nascimento.
E
os superstars também mandaram ver com classe e garra surpreendentes. George Duke
instalou a farra no Anhembi, enquanto Chick Corea brilhou com seu "sofistifunk"
e John McLaughlin estraçalhou seu arrebatador jazz-rock, faiscante e
interplanetário. Mas em matéria de técnica e emoção, os violonistas Larry
Coryell e Philip Catherine foram estrelas máximas, expandindo brilhantemente
influências como as de Django Reinhart, Charlie Christian e Wes Montgomery.
A grande virtude desse triunfal "Primeiro Festival", foi que não houve disputa ou confronto entre brasileiros e estrangeiros. Houve, isto sim, uma sadia troca de energia e vocabulário musicais em que o jazz saiu sempre e sempre vitorioso. A prova disso foi dada pelo prodigioso "Bruxo do Som", Hermeto Paschoal - autêntica síntese da maratona musical acontecida no Anhembi. Deliciosamente antropofágico, liquidificando todas as informações sonoras atuais, Hermeto partiu do mais descabelado free até a música nordestina, provando que os autênticos inventores vocais são aqueles que batalham para a criação da música do futuro.
PRIMEIRO FESTIVAL DE JAZZ DE SÃO PAULO
Data: de 11 a 18 de setembro de 1978
Local: Palácio das Convenções do Anhembi
Platéia: mais de 60.000 pessoas
Artistas: John McLaughlin, Tony Smith, Larry Coryell & Philip Catherine,
Dizzy Gillespie, Taj Mahal, Patrick Moraz, Hermeto Paschoal, Egberto Gismonti,
Chick Corea, Joel Farrel, Stan Getz, Al Jarreau, Peter Tosh, Milton Nascimento,
Nivaldo Ornellas, Benny Carter, Jazz at the Philarmonic, Raul de Souza, Djalma
Correa, George Duke, Etta James, Ray Brown, Zimbo Trio, Luiz Eça, Helio Delmiro,
Márcio Montarroyos, Wagner Tiso, Victor Assis Brasil, entre outros.