Um dia antes da entrevista, ele tinha tocado com Hermeto no Anhembi. E ainda estava vivendo o impacto dessa experiência.
Talvez por isso mesmo, Chick Corea passou a manhã inteira percorrendo lojas de São Paulo, à cata de instrumentos de percussão
brasileiros. Quando chegou, depois de mandar servir suco de laranja aos jornalistas, foi logo falando de Hermeto: "É fácil tocar
com ele. Nós já tínhamos tocado juntos em Nova Iorque, trabalhando com Miles Davis - portanto, viemos da mesma fonte. Acho
inclusive que Hermeto é o Miles Davis do Brasil. É ótimo brincar com ele nos instrumentos. Ele é "apenas' um gênio!".
E Chick, o que é? "Um espírito. As pessoas não são corpos, não são mentes, mas espíritos." Por isso, de acordo com a lógica de Corea, elas não têm nacionalidade. Ele mesmo é americano, descendente de italianos e gravou um LP chamado My Spanish Heart (Meu Coração Espanhol): "A técnica e o estilo podem ser coisas mecânicas. Mas o feeling, o jeito de você sentir a música, isso é algo espiritual, sem fronteiras. Não é necessário ser brasileiro para tocar samba. mas é preciso sentir o espírito do samba para tocá-lo bem". É por isso que Chick Corea procura fazer sua música dentro da perspectiva de uma "cultura planetária". Como ele mesmo diz: "Nós vivemos num mundo meio louco, em que os países são muito diferentes uns dos outros. E só há uma coisa que une isso tudo: a arte. Quem não sabe que as pessoas amam ouvir música no mundo inteiro?".
Então, para concluir, surge a perspectiva de uma "música coletiva" que viria completar o quadro de sua visão espiritual e planetária da arte. Ou seja: a atividade criativa não seria privilégio dos artistas, mas de todas as pessoas. Como exemplo do que ele imagina que possa ser esse tipo de trabalho, Chick Corea cita os casos de dois outros cobrões do jazz norte-americano, Sun Ra e Roland Kirk: eles, em seus concertos, dão instrumentos para a platéia tocar. E é nesse momento, então, quando fica divagando sobre a possibilidade de levar em frente seus projetos, que Chick Corea se entusiasma, relembra mais uma vez seu "desafio" do dia anterior com Hermeto e proclama: "Ora, o próprio carnaval de vocês é uma demonstração disso. As pessoas todas nas ruas, tirando sons de qualquer coisa que faça barulho - isso é uma bela maneira de fazer música coletiva!" E encerra o papo dizendo que voltará para ver o carnaval "in loco", é claro!
(Valdir Zwetsch)
Artigos e fotos extraidos da Revista POP Nº 73, novembro de 1978.
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Página produzida por Rodrigo Mantovani - 1999.
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